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21/12/2010 - Boxe: Minha luta inesquecivel

Os fs do pugilismo, assim como os dos demais esportes, sempre tm guardado na memria um momento inesquecvel, algo que sempre lembrado como o ponto culminante da relao mantida com a sua modalidade favorita.

O fantico por Frmula 1 deve sempre se recordar de uma corrida do Ayrton Senna, uma ultrapassagem inesquecvel, um ttulo mundial.

No futebol, os "boleiros" tambm sempre tm suas preferncias, suas lembranas favoritas que sempre vm tona. Um gol, um campeonato, uma jogada de efeito.

Enfim, todos os amantes de esportes tm seus momentos favoritos.

Ns, os incompreendidos simpatizantes do boxe, no somos diferentes e tambm temos nossas lutas favoritas, nocautes inesquecveis, etc.

Quem acompanha o RINGUE j deve saber que sou f declarado do Maguila. O nosso campeo sempre foi um lutador combativo, esforado, no fugia e nem escolhia adversrios. Maguila tinha suas qualidades e, como bem sabemos, suas deficincias (as mais graves: posicionamento de guarda e assimilao de golpes).

Sempre considerei injusto o tratamento dado ao Adilson. Ele fez muito pelo nosso esporte e nunca foi reconhecido. Sempre o criticaram pelo nvel de adversrios que enfrentava, como se Ali, Foreman, Tyson, Holyfield e Lewis tivessem enfrentado apenas "pedreiras" em suas respectivas carreiras. Isso uma balela. Todos os pugilistas, em todas as categorias, defrontam-se com adversrios menos qualificados. Ponto.

Sempre argumentam que Maguila teve algum destaque por causa da Rede Bandeirantes e de Newton Campos. Mas no reconhecem que se Maguila no tivesse carisma e no cumprisse o seu papel dentro do ringue, de nada adiantaria o plano de mdia que lhe foi traado.

Infelizmente, vivemos em um pas que apenas os vencedores e campees so aclamados. Os "carregadores de piano", ou aqueles que por algum motivo no conseguem ttulos de destaque, so sumariamente desprezados e esquecidos.

mais fcil criticar o Maguila, faz parte de nossa cultura. Difcil reconhecer os mritos de um nordestino que venceu na vida, fugindo da fome e da misria, depois de comer muito po com banana e dormir na rua dentro de um carro abandonado.

Pra quem duvida do valor de Maguila, qual outro peso pesado brasileiro conseguiu algum destaque depois dele? Mesmo que seja apenas no cenrio sul-americano. E olha que vivemos uma crise mundial na categoria mxima. Para se ter uma idia da escassez de bons pugilistas, chegamos ao ridculo de ver um lutador medocre como John Ruiz ostentar um cinturo mundial.

Voltando a falar de lutas inesquecveis, como no podia deixar de ser, a minha foi, talvez, o maior combate vitorioso da carreira de Adilson "Maguila" Rodrigues, qual seja: a revanche contra o argentino Walter Daniel Falconi.

Evidentemente, gosto no se discute. O amigo que est lendo meu texto, com certeza, deve ter sua luta preferida e achar uma bobagem eu escolher justamente esse combate. No lhe tiro a razo. Realmente tenho convico que essa luta no pode, sob nenhum aspecto, ser considerada uma das grandes da histria do pugilismo. Deixemos esses honrosos postos para a luta de Ali e Foreman no Zaire, Thrilla in Manila (Ali vs. Frazier) e tantas outras constantemente lembradas como "lutas do sculo".

O meu intuito no esse. Apenas quero registrar que a minha luta inesquecvel, aquela que marcou definitivamente minha ligao com o boxe foi, humildemente, Maguila vs. Falconi, a revanche.

Eu tinha apenas 13 anos e vivi intensamente os momentos que cercaram aquele combate. E bom se frisar que todos os detalhes que enriqueceram aquela revanche foram inesquecveis.

Inicialmente, no podemos nos esquecer da primeira luta entre os dois pugilistas. Maguila, at ento invicto em 14 lutas (13 por nocaute) e campeo sul-americano, despontava como um srio candidato disputa de ttulo mundial. No Brasil, nunca houve um peso pesado com to promissor incio de carreira.

Walter Daniel Falconi, embora argentino de nascimento, desenvolveu sua carreira na Itlia, e podia ser considerado um bom pugilista, digno da escola argentina de boxe. Manhoso, catimbeiro e mascarado. Era rpido, tinha boa tcnica, pegada de respeito e um contragolpe eficiente.

A primeira luta foi terrvel para o Maguila. Logo no primeiro round, Falconi partiu para a luta franca e Adilson no afinou. Os dois sentiram os golpes, mas Maguila ficou mais grogue. O segundo round seguiu a mesma toada, porm com um pouco menos de intensidade. No terceiro round, a catstrofe. Maguila estava com a guarda completamente abaixada (uma das grandes deficincias de sua carreira), deixando exposto o seu ponto mais fraco: o queixo. Falconi no perdeu a chance e enfiou um violento cruzado de direita na ponta do queixo do boxer sergipano, que desabou. Todo mundo ficou perplexo. Maguila tentou se levantar, mas j era tarde. Nocaute clssico para o argentino. Falconi, antiptico como s ele, vibrou e zombou do pblico e do nosso Maguila. Saltitava e manda beijinhos ao vento.

Pior do que agentar a mscara do argentino foi constar que comeava ali a se expor as fragilidades do nosso campeo.

Aps esse combate, bem sabemos, Maguila fez algumas lutas sofrveis at perder novamente em sua carreira, dessa vez para o "Martelo Holands", Andr van den Oetelaar.

Na seqncia do combate com o holands, a carreira de Maguila deu uma guinada. A Luqui, empresa que administrava a carreira do nosso peso pesado, contratou o tcnico Miguel de Oliveira, ex-campeo mundial na categoria meio-mdio-ligeiro. Miguel, em minha opinio, foi decisivo na carreira do Maguila. Sob sua orientao, o campeo viveu seu melhor momento.

O treinador sabia o que precisava ser trabalhado em Adilson. Assim, tratou de lhe aprimorar a tcnica defensiva. Maguila passou a lutar com a guarda mais encaixada, protegendo o queixo e se movimentando com mais desenvoltura quando era atacado, evitando, com isso, receber golpes mais violentos. Com Miguel de Oliveira, Maguila aprendeu a recuar e sempre procurar o melhor lugar no tablado para soltar os seus golpes.

Quando finalmente foi anunciada a revanche entre Maguilo e Falconi, ao saber da notcia, eu, um menino de 13 anos, j fiquei angustiado. Estava em jogo o ttulo sul-americano. Indagaes vinham minha cabea: E se o Maguila perder de novo? Ser o final de sua carreira? E se o Maguila vencer? Faro um terceiro combate?

Antes da revanche, Maguila fez uma luta contra o turco Vedat Akova, uma verdadeira "galinha morta", que no mostrou a que veio (ou mostrou: apanhar e ir embora com alguns trocados).

Nas semanas que antecediam grande luta, os programas "Esporte Total", de segunda a sexta-feira e "Show do Esporte", aos domingos, davam grande cobertura ao evento. Toda preparao de Maguila era noticiada: A chegada de seu "sparring" panamenho, os seus treinos, entrevistas com a sua equipe, reprises de suas lutas, reportagens sobre o seu oponente. Nunca me esqueo de assistir a um "tape" da luta entre Walter Daniel Falconi e Rocky Sekorski. Fiquei aterrorizado. O argentino surrou o polaco durante toda a luta, mas no o derrubou. Terminado o combate, Falconi mostrou suas mos machucadas de tanto bater no adversrio. Ele parecia estar em grande forma. Acendi o meu sinal de alerta. Comecei a ficar pessimista, j temendo que Falconi fosse o que na verdade nunca foi: um grande pugilista.

O clima nervoso estava formado. Provocaes de todos os lados, hostilidades e o dia da luta se aproximando. At que, finalmente, o argentino chega ao Brasil com aquele sorriso cnico estampado no rosto. Ele sabia deixar os torcedores com raiva. Sempre sorrindo, s vezes em tom de deboche, s vezes querendo demonstrar superioridade, enfim, as suas atitudes ajudavam ainda mais a apimentar e promover o combate.
Chegou o domingo, 18 de maio de 1986. Ginsio do Parque So Jorge, So Paulo. 19h00.

O local recebeu, aproximadamente, seis mil torcedores. O pblico aguardava com muita ansiedade a entrada dos dois pugilistas. As preliminares foram de um bom nvel, com destaque para as lutas de Claudemir Carvalho Dias (peso mosca que chegou a disputar o ttulo mundial contra o panamenho Hilrio Zapata), Hlio Santana (bom pugilista que teve a carreira precocemente interrompida por ter sido esfaqueado) e, principalmente, a disputa do ttulo brasileiro dos meio-pesados entre Clarimundo Silva, o Claro e o ento presidirio Rui "Barbosa" Bonfim (vitria deste ltimo no stimo round).

Realizadas todas as demais lutas da programao, havia chegado a hora do grande combate.

Falconi dirigiu-se ao ringue sob uma vaia ensurdecedora. Os apupos eram to estridentes que no se ouvia o narrador Luciano do Valle.

Chegou a vez do nosso campeo. Maguila foi recebido com muita euforia. Ele era um grande dolo do esporte brasileiro. Era impossvel no torcer por aquele sergipano boa praa.

Adilson havia se preparado como nunca para aquele combate. Estava pesando em torno de 96, 97 quilos (para se ter uma idia, contra Holyfield ele pesou 100 Kg).

O palco estava armado. Execuo dos hinos nacionais, recomendaes do rbitro Antonio Ziravello, o ringue esvaziado pelos segundos e tudo pronto. Comea o combate.

Logo no primeiro round, Maguila acerta golpes no olho direito de Falconi que comea a sangrar. Comeo a ficar mais confiante. Maguila est bem, movimenta-se bastante e acerta os melhores golpes num Falconi visivelmente incomodado com o corte.

O segundo round tambm foi vencido por Maguila. Nenhum grande golpe, mas um boxe bem jogado, com uma ttica de luta bem definida pelo tcnico do brasileiro: Soltar golpes rpidos, evitar a curta distncia e minar o adversrio.

A partir do terceiro round, a raa argentina comeou a aparecer. O corte no olho direito melhorou e Falconi equilibrou o combate. O peso-pesado portenho achou a distncia e passou a incomodar o brasileiro, chegando a abal-lo, principalmente no quarto assalto.

Todos os meus medos haviam voltado tona. Falconi lutava com aquele sorriso irritante e j se colocava como senhor da situao. Maguila parecia sentir os golpes e comeava a dar sinais de que seria vencido novamente. Pnico total. Num momento de pessimismo, eu j via Maguila derrotado, na lona, com a carreira comprometida.
Porm, no sexto assalto, houve equilbrio entre os pugilistas. Falconi parecia um pouco cansado e Maguila aproveitou para colocar seus golpes e fugir do castigo que at ento lhe era imposto.

Stimo round: Chegou a hora da maior lembrana que guardo do boxe. Hora do nocaute. Momento de ver finalmente aquele argentino tirar do rosto aquela risadinha arrogante. Chegou a hora de vingar aquela derrota e ver Falconi na lona.

A imagem do nocaute inesquecvel. Maguila est sendo caado por Falconi. Recua, foge das cordas, volta para o centro do ringue, ergue a guarda, olha fixamente para o argentino e comea a seqncia demolidora: jabs de esquerda para abrir a guarda, direto de direita violentssimo, seguido por cruzados de esquerda e de direita. Falconi cai de costas. Delrio total no Parque So Jorge. aberta a contagem. O argentino volta ao combate, mas apenas para cair de novo. Maguila leva-o at as cordas e solta mais um cruzado de direita no queixo do pugilista platino. Acabou a luta. Nocaute sensacional de Maguila. Estvamos todos vingados. Ria agora, Falconi!! Cad o gigante argentino?? Houve invaso do ringue, uma comemorao emocionante, como se o brasileiro tivesse conquistado um ttulo mundial. Foi apotetico.

Assim, por todos esses aspectos, essa luta foi inesquecvel para mim. Ainda hoje, revendo o momento do nocaute no site do Maguila (www.maguila.com.br), eu me emociono. Justia seja feita, a narrao de Luciano do Valle, parafraseando-o, foi E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R!

Depois o nosso campeo venceu tambm a revanche contra o holands Oetellar e sua carreira seguiu novos rumos. Mas o combate contra Falconi, em minha opinio, foi o momento ureo de Adilson "Maguila" Rodrigues. Minha luta inesquecvel.


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